Promoção das Trocas Comerciais entre a República de Cabo Verde e os Países Francófonos da África: Que Papel Pode Desempenhar a Língua Francesa?

Les francophones dans le mondeNo quadro do Colóquio sobre «O Ensino do Francês como vector de desenvolvimento económico e de integração regional» realizada pela Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) em parceria com a embaixada da França na República de Cabo Verde, a Directora Geral do Instituto de África Ocidental (IAO) fez, no dia 20 de Março de 2017, na Uni-CV, uma conferência intitulada «Promoção das trocas comerciais entre a República de Cabo Verde e os países francófonos da África: Que papel pode desempenhar a língua francesa?»

O Colóquio que teve lugar no âmbito da celebração do Mês da Francofonia, esteve sob os auspícios do Ministério da Educação, da Família e da Inclusão social, do Ensino Superior e da Ciência.

Logo no começo, Prof. Djénéba Traoré explicou que o tema foi guiado por sua vontade de realçar as fortes ligações que existem entre a língua francesa como elemento chave de uma cultura e os sectores politico e comercial.  

O plano da explanação foi concebido da seguinte forma:

I. Francofonia: Nascimento e evolução do conceito

II. Génese e impacto das Luzes no mundo

III. Regras básicas para a conquista dos mercados

IV. Oportunidades que oferecem o espaço francófono para o desenvolvimento das trocas comerciais entre Cabo Verde e os países francófonos de África, principalmente a nível dos Estados-membros da CEDEAO.

A Directora Geral do IAO fez, para começar, uma revisão da história do nascimento do conceito de Francofonia no fim do século 19. Na época, a expressão designava «o conjunto das pessoas e dos países que utilizam o francês» e está na origem da existência de um espaço linguístico partilhado, propício às trocas e ao enriquecimento mútuo.

Em 1962 foi criada a Associação dos Escritores de Língua Francesa (Adelf), seguido da criação, em 1950 da União Internacional dos Jornalistas e da Mídia de Língua Francesa (hoje União da Mídia Francófona).

1955 foi marcado pelo aparecimento da Comunidade das Rádios Públicas Francófonas com a Rádio França, a Rádio Suíça Romanda, Rádio Canadá e a Rádio Belga Francófona (emissões comuns difundidas simultaneamente nas ondas das rádios membros, contribuindo assim ao reforço do movimento francófono pelo mundo).

Foi em 1960 que a primeira instituição intergovernamental francófona foi criada pela Conferência dos Ministros da Educação Conférence des Ministres de l’Education (Confemen) que conta hoje com 41 Estados e Governos membros (orientações em matéria de educação e de formação ao serviço do desenvolvimento).

1961 é o ano da criação da Associação das Universidades parcialmente ou inteiramente de língua francesa, que se tornará em 1999 na Agência Universitária da Francofonia l’Agence universitaire de la Francophonie (AUF). A AUF conta hoje com 677 estabelecimentos de ensino superior e de investigação distribuídos por 81 países. Ela é um dos operadores especializados da Francofonia.

Outras etapas significativas foram:

 1967:  A Assembleia Parlamentar da Francofonia Assemblée parlementaire de la Francophonie (APF). Em 1997, 65 parlamentos membros e 11 observadores e representa, segundo a Carta da Francofonia, a Assembleia consultiva do dispositivo institucional francófono.

 1969:  Conferência dos Ministros da Juventude e Desportos Conférence des ministres de la Jeunesse et des Sports (Conféjes). Com a Confemen, é a segunda conferência ministerial permanente da Francofonia.

A ideia de criar uma instituição intergovernamental francófona foi lançada em 1970 em Niamey, pela Assembleia Parlamentar da Francofonia (APF) a quando da segunda conferência da Agência de Cooperação Cultural e Técnica, que hoje se denomina Organização Internacional da Francofonia Organisation Internationale de la Francophonie (OIF) da qual a APF tornou-se uma instituição integrada

Com a realização das Cimeiras da Francofonia a partir de 1986, a Francofonia viu seu papel acrescido no cenário internacional. Este papel é posto em evidência pela criação do posto de Secretário Geral, uma das decisões mais importantes da Cimeira de Cotonou (1995, Benim).

À cultura e à educação, áreas de origem da cooperação francófona, se acrescentaram, a cada cimeira, o campo político (paz, democracia e direitos humanos), o desenvolvimento sustentável, a economia e as tecnologias numéricas. 

Notamos, neste último ponto, que no ano 2000, a utilização da língua inglesa nas páginas internet foi estimada a 60%. No entanto, essa percentagem diminui pois era de 78% em 1998. A parte do Francês entretanto aumentou sensivelmente passando de 2,8% a 4,39%.

O Instituto da Energia e do Ambiente da Francofonia nasceu em Quebec em 1988 e um Instituto de Novas Tecnologias de Informação e da Formação dotado de um Fundo das rodovias substitui a Escola Internacional de Bordéus em 1998.

No ano 2000, no Mali, a «Declaração de Bamako», primeiro texto normativo da Francofonia em matéria da democracia, dos direitos e das liberdades é adoptada (poderes restritivos para o respeito dos valores democráticos comuns).

Em 1987 nascem os Jogos da Francofonia. Organizados a cada quatro anos, o evento permite ter em conta os jovens que representam uma parte importante da população francófona, bem como a Conferência Francófona das Organizações Internacionais não governamentais e outras organizações da sociedade civil, intervenientes nos diversos campos de actividade da Francofonia são acreditados.

Para uma melhor compreensão do impacto da língua francesa pelo mundo, Prof. Traoré trouxe à memória o Século das Luzes (de 1715 com a morte do Rei Sol, Luis XIV, a 1799 com o golpe de estado do 18 do Brumário de Napoleão Bonaparte que põe fim à Revolução Francesa) e o período que precedeu esta importante corrente filosófica e literária com poetas como François Villon, os escritores de fábulas como Jean de la Fontaine, escritores adeptos da farsa como Rabelais e filósofos como Montaigne ou Descartes.

A ignorância sendo o instrumento mais importante da exploração, é o saber que permite de quebrar as correntes do despotismo e do obscurantismo. Também, para difundir conhecimentos, d’Alembert, Diderot e d’Holbach realizaram a Enciclopédia. Montesquieu, Voltaire e Rousseau desenvolveram princípios de igualdade para todas as pessoas humanas perante a lei (a escravatura foi abolida pela Revolução Francesa, depois restabelecida por Napoleão, sob o Império), reclamaram a abolição dos privilégios de que gozava a nobreza e defendiam uma educação mais próxima da natureza.

Voltaire também defendeu que era necessário esclarecer a opinião e por os estudos e a escritura ao serviço da justiça. Ele publicou o seu Dicionário filosófico. É através da difusão do saber que os Lumières se comprometem a mais formidável batalha de ideias de todos os tempos.

Na Alemanha, o Século das Luzes tomou o nome de “Aufklärung” seguido do movimento literário “Sturm und Drang” cujos mestres incontestados são Johann Christoph Gottsched, Gotthold Ephraim Lessing, Johann Gottfried von Herder, Johann Wolgang von Goethe e Johann Christoph Friedrich von Schiller. Eles consagraram toda sua vida neste movimento literário e filosófico, a revolucionar as mentalidades e a transformar positivamente a sociedade alemã. No entanto estimaram que a Revolução Francesa levada a cabo por Maximilien de Robespierre levou à instauração do terrore e do culto do Ser Supremo e não atingiu os seus objectivos. Também a Alemanha conheceu uma revolução literária de curta duração (Sturm und Drang) e não uma revolução social, como foi o caso da França, com o seu símbolo forte, a tomada de Bastilha, a 14 de Julho de 1789 e a decapitação do Rei Luis XVI a 21 de janeiro de 1793, seguido da de Marie Antoinette, a 16 de Outubro do mesmo ano.

Na Itália falava-se de «Un secolo illuminato», na espanha de «Siglo de las luces» e na Inglaterra de «Enlightenment» ou «Age of reason».

Os ideais veiculados pelo século das luzes ultrapassam muito cedo o continente europeu chegando ao oceano atlântico e assim contribuir para o início da guerra pela independência na América do Norte na qual Gilbert du Motier de la Fayette participou e conheceu uma grande fama. A 4 de Julho de 1776, os representantes das 13 colonias reunidas em Filadélfia adoptaram a Declaração de Independência.

Segundo Raul Marc Jennar, as luzes foram determinantes para a advento do espírito crítico, do voluntariado, da liberdade, da igualdade, da tolerância, da democracia e da universalidade humana.

Passando ao terceiro ponto da sua exposição, a Directora Geral do IAO apresentou algumas regras importantes de base para a conquista de mercados, nomeadamente, um perfeito conhecimento e domínio da sua empresa, o domínio e bom conhecimento da sua clientela, conhecer bem a sua competitividade, elaborar uma boa política de introdução dos seus produtos e serviços no mercado, dispor de uma boa equipa de gestão, de venda, uma mão de obra qualificada e empregados competente, possuir uma boa política e estratégia de relações públicas, compreender as diferenças culturais, contratar emigrantes, participar nas delegações de empresas, escolher uma boa representação e por fim, garantir e conservar uma boa rentabilidade.

Abordando o quarto e último ponto da sua apresentação, Prof. Djénéba Traoré tentou mostrar as oportunidades que oferecem a língua francesa e a OIF para o desenvolvimento das trocas comerciais entre Cabo Verde e os países francófonos da África, principalmente a nível dos estados membros do espaço CEDEAO.

A África conta ao todo com 21 Estados francófonos no sul do Sahara e cinco no Magrebe nos quais o francês é fluentemente falado. Convém sublinhar aqui que a África, no seu todo, representa somente 2,2% da exportação mundial e que as exportações incidem sobretudo sobre matérias primas.

 

Pays Membres CEDEAOOrganização intergovernamental criada a 28 de Maio de 1975, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) é a principal estrutura destinada a coordenar as acções dos países da África Ocidental. Seu objectivo é promover a cooperação e a integração com vista a criação de uma união económica e monetária oeste africana. A CEDEAO é um espaço de civilização moldado por uma história milenária. Segundo o FMI, o PIB PPA global dos estados-membros da CEDEAO remonta a 564,86 milhares de dólares o que faz da CEDEAO a 25ª potência económica mundial, lugar de que a adesão de Marrocos faria consideravelmente avançar. Os países francófonos da CEDEAO são: Burkina Faso, Benim, Costa de Marfim, Guiné Conacri, Mali, Níger, Senegal e Togo.

 

A CEDEAO é uma região cujas potencialidades económicas são enormes, mas muito sub exploradas. Países com recursos económicos e demográficos contrastados coabitam. Se, pela importância dos seus recursos demográficos (55% da população da região), do seu potencial económico, (48% do PIB regional), Nigéria surge como a locomotiva económica, mas o prémio do país com o rendimento mais elevado por habitante cabe a Cabo Verde com 4000US$.

Resumindo, a Àfrica Ocidental representa oportunidades imensas para as trocas comerciais entre os Estados-membros, facilitados pela livre circulação de pessoas e bens. Para o efeito, a aplicação do TEC (Tarifa Exterior Comum) e a diminuição das barreiras aduaneiras são considerados trunfos importantes.

Concluindo, a Directora Geral do IAO pôs a tónica no facto de que a história da língua francesa mostra a que ponto este meio é essencial para fazer passar as ideias, transmitir o conhecimento, transformar a sociedade e levar a mudanças políticas como a instauração de uma cultura democrática. Por fim apelou os estudantes a utilizar as suas capacidades intelectuais para criar empregos inovadores num mundo marcado pela globalização e a competitividade e onde o desemprego de jovens diplomados representa um dos maiores desafios a vencer.

 

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